sábado, 26 de novembro de 2011

Adeus, Toniquinho Batuqueiro!

Silêncio, mais um sambista está dormindo. E é mais um que foi sem dizer adeus... Toniquinho nos deixará saudade e muita história pra contar, do samba, da nossa terra, do nosso povo... Vítima de um AVC, Antonio Messias de Campos, o Toniquinho Batuqueiro. Nascido na fazenda do Pau Queimado em Piracicaba, Batuqueiro foi enterrado nesta quinta-feira às 10h30 no Cemitério Santo Antônio, em Osasco. Com 81 anos, foi pra São Paulo com 14 anos levado pelos tios e lá fincou raízes. Neste documentário, gravado no Sesc Piracicaba pela Filó Comunicações, Toniquinho conta detalhes de sua vida no interior e suas andanças pela capital. 




Toniquinho Batuqueiro, 76, veio de Piracicaba ainda menino para morar na rua Apa, nos Campos Elíseos. Orfão de pai e mãe, foi parar em uma região que é um dos berços do samba de sotaque e jeito paulista. Circulou pela Barra Funda, deu seus pulos nas rodas de Tiririca no Largo da Banana e frequentou rodas de samba por todas as "quebradas do mundaréu", como dizia seu parceiro e amigo Plínio Marcos. Hoje, é um dos integrantes, da Embaixada do Samba, organização criada em 1995 para representar e divulgar a história do samba paulistano. Durante as gravações da quarta vídeo-reportagem da série sobre o samba de São Paulo, Toniquinho -há quatro anos praticamente cego por causa de um glaucoma- conta que aprendeu o samba "emprenhado pelo ouvido". "Meus avós tocavam tambu, dançavam tambu, tinha cururueiro na família, e eles me levavam. No 13 de maio, ia nas festas de negro atrás da Igreja do Rosário, em Piracicaba, que sempre tinha samba."Além de trazer o ritmo forte e grave típico do interior de SP, Toniquinho veio de Piracicaba com o ouvido "emprenhado" também pelo cururu, uma forma de desafio em versos improvisados e acompanhada de viola caipira. Toniquinho diz que já em São Paulo, quando sobrava um dinheirinho, o tio trazia o pessoal de Piracicaba para cantar um cururu na casa dele. "Eram quatro cantando aqueles versos pesados, destratando o outro, dois contra dois. Quando dava meia-noite, eles iam comer frango, leitão, aquelas coisas, tudo amigo. Dava um tempinho e eles passavam a mão na viola e começava a ´carreira do divino`, aí só podia cantar pro santo. E o cururu comia até de manhã", lembra Toniquinho. Na cidade, na década de 1940, Toniquinho se virava engraxando sapatos na praça da Sé. Mas, mesmo no "veneno", com dificuldade para levantar uns trocados, marcava presença no samba. No meio da rapaziada, tirava som das próprias caixas de engraxates até a polícia chegar e mandar parar tudo. Na São Paulo do tempo do bonde, segundo Toniquinho Batuqueiro, não se podia andar com um tamborim na mão que o sujeito ia preso na hora. E a perseguição aos pobres e negros não se limitava ao porte "ilegal" de tamborim. A polícia não dava refresco. "Em São Paulo, preto de sapato branco, em dia de semana, tava em cana", lembra o embaixador. Foi em um desses "güentas" que a polícia dava na rapaziada que o engraxate Batuqueiro conheceu o compositor B. Lobo, carioca e sambista que migrara para São Paulo e que depois tornou-se seu padrinho de casamento. Lobo já era compositor conhecido no mundo do samba do Rio, e estava em evidência com o samba "Abre-alas", que fazia muito sucesso na época. Plínio Marcos narrou o episódio em uma crônica para a Folha de São Paulo, de 5 de dezembro de 1976:
"(.) O B. Lobo, por razões dele, resolveu emigrar pra São Paulo. E veio com tudo que tinha. Um terno e sapato marrom e branco. Segundo ele mesmo, foi o primeiro crioulo a usar sapato fantasia aqui em São Paulo. Se destacou logo que desembarcou, por essa bossa. Foi andando pela rua e não demorou pra polícia se apresentar:
- Documento, negão. Ele não se fez de rogado. Alfaiate de profissão, não era nenhum vadio. Mas, mesmo assim, os homens estranharam ele e deram um alô:
- Com esse sapato todo afrescalhado, tu não vai ter boa vida por aqui. 
B. Lobo não queria complicação. O primeiro engraxate que viu era um negrinho cheio de truques. B. Lobo deu as ordens:
- Tinge esse pisante de preto e com capricho. O engraxate obedeceu e, enquanto trabalhava, batucava um samba na caixa. 
O B. Lobo se impressionou:
- De quem é esse samba, moleque? Meio encabulado, o negrinho deu a autoria:
- É meu.
- Teu mesmo?
- É.
- Como é teu nome?
- Toniquinho. E era o Toniquinho mesmo o engraxate. Toniquinho Batuqueiro, nascido e criado no Pau Queimado, sobrinho do Zé Almofadão, genial curuzeiro, e neto do Velho Silvério, maior tocador de tambu de todo o Brasil, além de ser um famoso macumbeiro. B. Lobo conheceu o Toniquinho e se sentiu em casa. São Paulo tinha samba. Samba da pesada. Então, ele se instalou e nunca mais foi embora." Também conhecedor da marginalização, o escritor e dramaturgo Plínio Marcos não era cronista de costumes de salão. Andava lado a lado com a rapaziada, remava contra a maré e defendia o samba paulista. Amigo fraterno de Toniquinho Batuqueiro, Plínio criou um espetáculo em que integrava seus textos à lavra dos sambistas-poetas-engraxates. Junto de Geraldo Filme e Zeca da Casa Verde, Toniquinho embarcou nas apresentações de "Nas Quebradas do Mundaréu", espetáculo e show que também foi mostrado com o nome de "Deixa Pra Mim Que Eu Engrosso", com a presença de outros sambistas. O espetáculo gerou um disco, gravado em 1974, que tornou-se fundamental para a história do samba de São Paulo: "Plínio Marcos em Prosa e Samba - Nas Quebradas do Mundaréu". O LP é uma raridade disputada nos sebos da cidade. Sabedor das dificuldades de sobreviver de sua arte, Toniquinho tem afiado o discurso da valorização do sambista. "Em show de branco e de artista da televisão, tem cachê alto, camarim e tudo. Mas quando é do samba, dizem que é bom pra divulgação. Eu já sou de idade, não quero divulgação, quero ganhar o meu pra engrossar a sopa. E promessa não engrossa a sopa de ninguém." Ao que parece, pelos seus versos, o aprendizado vem de longe. "Mandei preparar o terreiro que já vem chegando o dia / Eu vou encourar meu pandeiro preparar pra folia / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia / No dizer de minha avó sambador não tem valia / Samba nunca deu camisa minha avó sempre dizia / Sambador não vale nada dorme na calçada não cuida da família / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia". Atuante em diversas escolas de samba, Batuqueiro passou pela Vila Maria, pelo Império do Cambuci e outras, mas diz ter no coração a Unidos do Peruche, que ajudou a fundar junto com Carlão da Peruche. Ao lado de Carlão, na quadra da escola, Toniquinho orgulha-se pelo fato de ter uma "visão futurista" desde a juventude. "Eu sempre disse que a gente tinha que registrar os sambas da escola, para deixar alguma coisa pro futuro." Um disco saiu no início da década de 1970. São sambas que cobrem o período de dez anos da escola, da década de 1960. Em março de 2006, o projeto Memória do Samba Paulista renderá homenagem a Toniquinho Batuqueiro e lançará um novo disco com suas composições. "Se você quer construir uma casa, coloque um tijolo por ano que no final da vida você terá uma casa pra morar", aconselha o embaixador.
Por : RODRIGO SIQUEIRA

2 comentários:

Pedro disse...

Olá pessoal

Gostaria de saber se o Quilombola acabou? Não vejo mais as rodas de samba de vocês pela cidade.A propósito, sem preconceitos eu não tenho nada quanto aos sambas mais modernos, mas sinto muito a falta dos repertórios antigos que vocês tocavam. Não deixem o samba morrer

Diego Lima disse...

Olá, tudo bem?

Posso adicionar seu blog aos parceiros do meu ?

A proposta do blog é organizar vídeos de choro espalhados pela internet e criar um ambiente interativo, facilitar pesquisas e tudo mais, se puder também colocar como parceiro seria legal ! Um abraço !!

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