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sábado, 26 de novembro de 2011

Adeus, Toniquinho Batuqueiro!

Silêncio, mais um sambista está dormindo. E é mais um que foi sem dizer adeus... Toniquinho nos deixará saudade e muita história pra contar, do samba, da nossa terra, do nosso povo... Vítima de um AVC, Antonio Messias de Campos, o Toniquinho Batuqueiro. Nascido na fazenda do Pau Queimado em Piracicaba, Batuqueiro foi enterrado nesta quinta-feira às 10h30 no Cemitério Santo Antônio, em Osasco. Com 81 anos, foi pra São Paulo com 14 anos levado pelos tios e lá fincou raízes. Neste documentário, gravado no Sesc Piracicaba pela Filó Comunicações, Toniquinho conta detalhes de sua vida no interior e suas andanças pela capital. 




Toniquinho Batuqueiro, 76, veio de Piracicaba ainda menino para morar na rua Apa, nos Campos Elíseos. Orfão de pai e mãe, foi parar em uma região que é um dos berços do samba de sotaque e jeito paulista. Circulou pela Barra Funda, deu seus pulos nas rodas de Tiririca no Largo da Banana e frequentou rodas de samba por todas as "quebradas do mundaréu", como dizia seu parceiro e amigo Plínio Marcos. Hoje, é um dos integrantes, da Embaixada do Samba, organização criada em 1995 para representar e divulgar a história do samba paulistano. Durante as gravações da quarta vídeo-reportagem da série sobre o samba de São Paulo, Toniquinho -há quatro anos praticamente cego por causa de um glaucoma- conta que aprendeu o samba "emprenhado pelo ouvido". "Meus avós tocavam tambu, dançavam tambu, tinha cururueiro na família, e eles me levavam. No 13 de maio, ia nas festas de negro atrás da Igreja do Rosário, em Piracicaba, que sempre tinha samba."Além de trazer o ritmo forte e grave típico do interior de SP, Toniquinho veio de Piracicaba com o ouvido "emprenhado" também pelo cururu, uma forma de desafio em versos improvisados e acompanhada de viola caipira. Toniquinho diz que já em São Paulo, quando sobrava um dinheirinho, o tio trazia o pessoal de Piracicaba para cantar um cururu na casa dele. "Eram quatro cantando aqueles versos pesados, destratando o outro, dois contra dois. Quando dava meia-noite, eles iam comer frango, leitão, aquelas coisas, tudo amigo. Dava um tempinho e eles passavam a mão na viola e começava a ´carreira do divino`, aí só podia cantar pro santo. E o cururu comia até de manhã", lembra Toniquinho. Na cidade, na década de 1940, Toniquinho se virava engraxando sapatos na praça da Sé. Mas, mesmo no "veneno", com dificuldade para levantar uns trocados, marcava presença no samba. No meio da rapaziada, tirava som das próprias caixas de engraxates até a polícia chegar e mandar parar tudo. Na São Paulo do tempo do bonde, segundo Toniquinho Batuqueiro, não se podia andar com um tamborim na mão que o sujeito ia preso na hora. E a perseguição aos pobres e negros não se limitava ao porte "ilegal" de tamborim. A polícia não dava refresco. "Em São Paulo, preto de sapato branco, em dia de semana, tava em cana", lembra o embaixador. Foi em um desses "güentas" que a polícia dava na rapaziada que o engraxate Batuqueiro conheceu o compositor B. Lobo, carioca e sambista que migrara para São Paulo e que depois tornou-se seu padrinho de casamento. Lobo já era compositor conhecido no mundo do samba do Rio, e estava em evidência com o samba "Abre-alas", que fazia muito sucesso na época. Plínio Marcos narrou o episódio em uma crônica para a Folha de São Paulo, de 5 de dezembro de 1976:
"(.) O B. Lobo, por razões dele, resolveu emigrar pra São Paulo. E veio com tudo que tinha. Um terno e sapato marrom e branco. Segundo ele mesmo, foi o primeiro crioulo a usar sapato fantasia aqui em São Paulo. Se destacou logo que desembarcou, por essa bossa. Foi andando pela rua e não demorou pra polícia se apresentar:
- Documento, negão. Ele não se fez de rogado. Alfaiate de profissão, não era nenhum vadio. Mas, mesmo assim, os homens estranharam ele e deram um alô:
- Com esse sapato todo afrescalhado, tu não vai ter boa vida por aqui. 
B. Lobo não queria complicação. O primeiro engraxate que viu era um negrinho cheio de truques. B. Lobo deu as ordens:
- Tinge esse pisante de preto e com capricho. O engraxate obedeceu e, enquanto trabalhava, batucava um samba na caixa. 
O B. Lobo se impressionou:
- De quem é esse samba, moleque? Meio encabulado, o negrinho deu a autoria:
- É meu.
- Teu mesmo?
- É.
- Como é teu nome?
- Toniquinho. E era o Toniquinho mesmo o engraxate. Toniquinho Batuqueiro, nascido e criado no Pau Queimado, sobrinho do Zé Almofadão, genial curuzeiro, e neto do Velho Silvério, maior tocador de tambu de todo o Brasil, além de ser um famoso macumbeiro. B. Lobo conheceu o Toniquinho e se sentiu em casa. São Paulo tinha samba. Samba da pesada. Então, ele se instalou e nunca mais foi embora." Também conhecedor da marginalização, o escritor e dramaturgo Plínio Marcos não era cronista de costumes de salão. Andava lado a lado com a rapaziada, remava contra a maré e defendia o samba paulista. Amigo fraterno de Toniquinho Batuqueiro, Plínio criou um espetáculo em que integrava seus textos à lavra dos sambistas-poetas-engraxates. Junto de Geraldo Filme e Zeca da Casa Verde, Toniquinho embarcou nas apresentações de "Nas Quebradas do Mundaréu", espetáculo e show que também foi mostrado com o nome de "Deixa Pra Mim Que Eu Engrosso", com a presença de outros sambistas. O espetáculo gerou um disco, gravado em 1974, que tornou-se fundamental para a história do samba de São Paulo: "Plínio Marcos em Prosa e Samba - Nas Quebradas do Mundaréu". O LP é uma raridade disputada nos sebos da cidade. Sabedor das dificuldades de sobreviver de sua arte, Toniquinho tem afiado o discurso da valorização do sambista. "Em show de branco e de artista da televisão, tem cachê alto, camarim e tudo. Mas quando é do samba, dizem que é bom pra divulgação. Eu já sou de idade, não quero divulgação, quero ganhar o meu pra engrossar a sopa. E promessa não engrossa a sopa de ninguém." Ao que parece, pelos seus versos, o aprendizado vem de longe. "Mandei preparar o terreiro que já vem chegando o dia / Eu vou encourar meu pandeiro preparar pra folia / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia / No dizer de minha avó sambador não tem valia / Samba nunca deu camisa minha avó sempre dizia / Sambador não vale nada dorme na calçada não cuida da família / Quando começar o pagode pego o pandeiro caio na orgia". Atuante em diversas escolas de samba, Batuqueiro passou pela Vila Maria, pelo Império do Cambuci e outras, mas diz ter no coração a Unidos do Peruche, que ajudou a fundar junto com Carlão da Peruche. Ao lado de Carlão, na quadra da escola, Toniquinho orgulha-se pelo fato de ter uma "visão futurista" desde a juventude. "Eu sempre disse que a gente tinha que registrar os sambas da escola, para deixar alguma coisa pro futuro." Um disco saiu no início da década de 1970. São sambas que cobrem o período de dez anos da escola, da década de 1960. Em março de 2006, o projeto Memória do Samba Paulista renderá homenagem a Toniquinho Batuqueiro e lançará um novo disco com suas composições. "Se você quer construir uma casa, coloque um tijolo por ano que no final da vida você terá uma casa pra morar", aconselha o embaixador.
Por : RODRIGO SIQUEIRA

quarta-feira, 30 de março de 2011

O samba Naif de Heitor dos Prazeres



Heitor dos Prazeres nasceu no dia 23 de setembro de 1898, no bairro da Cidade Nova, famosa  Praça Onze, local que floresceu o samba carioca nos encontros da casa da Tia Ciata. Seu pai era marceneiro de profissão e clarinetista da Banda da Guarda Nacional, sua mãe costureira. Lino, como era conhecido, cresceu com as duas irmãs, família negra, vida simples e numa época onde a escravatura havia sido recentemente abolida, exigindo que as famílias andassem na linha, dedicando ao trabalho, único modo de manter o nível social longe dos morros e favelas. Dessa maneira, Heitor ou Lino, foi desde menino instruído como marceneiro pelo pai, que falecera quando tinha 7 anos. Aos 12 anos, já frequentava a casa da tia Ciata, levado pelos familiares, entre eles Hilário Jovino, grande entusiasta à carreira musical do menino Heitor, que olhe deu o primeiro cavaquinho. Nesta época Prazeres já estava em contato com ritmos afros como candomblé, jongo, lundu, cateretê e o samba, destacando-se como um grande ogã-ilu e ogã-alabé, improvisando versos, ritmando nos instrumentos de percussão e harmonizando em seu cavaquinho. 

A partir de então, Mano Heitor, como fica conhecido por andar com os bambas do Estácio, ganha a vida das ruas e noites cariocas, dos cines mudos, dos cafézinhos, dos carnavais, sempre cantando e tocando cavaquinho, conhecendo toda a gente do samba carioca. Logo suas canções estão nas rádios gravadas pelos  grandes intérpretes como Francisco Alves, torna-se parceiro de muitos sambistas renomados como Cartola, Noel Rosa, Herivelto Martins, Paulo da Portela e Sinhô, com quem travou a primeira polêmica musical. Quando foi reivindicar parceria numa música que havia estourado com Chico Alves, Sinhô lhe responde: "Samba é como passarinho, a gente pega no ar". Esta frase lhe rendeu o samba alerta " Olha ele, Cuidado" e "Rei dos meus sambas", ironizando o prefixo dado à Sinhô de rei do samba. Heitor tem uma carreira extensa e marcante na vida musical, sua obra abarca mais de 250 composições, entre sambas, canções, choros, valsas, baiões, marchas, etc. Mas, além desta grandiosa obra musical, Heitor dos Prazeres ganhou notoriedade com as arte plásticas, onde junto com alguns outros pintores, inauguram a Arte Naif no Brasil. Os quadros de Heitor destacam-se, além da vivacidade das cores e alegria características das obras naifs, pela contextualidade dos temas pintados. Ilustrou como ninguém a música, a dança, as festas, os bares, os ritos, as tradições, os lugares, os trejeitos, as mulatas, os malandros...só vendo pra crer. Heitor dos Prazeres é figura eternizada na cultura popular e merece nossas devidas homenagens. Resumindo, fiquem com algumas telas de Heitor dos Prazeres.



ASSISTA: Este vídeo documentário de 10 minutos, entrevistas grandes personalidades como Ricardo Cravo Albin, Heitorzinho dos Prazeres, Dona Neuma da Mangueira, Tônia Carrero, Haroldo Costa, Monarco da Portela, Paulinho da Viola e Elifas Andreato. No final imagens de Heitor e suas pastoras.



quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Partido Alto

Aqui vai uma aula de partido alto por Mestre Candeia, mas antes quero expor idéias e apresentar fragmentos de textos que nos levam a considerar que a própria história é dinâmica e que fatos antigos ganham outra expressão quando alinhados aos estudos recentes sobre cultura brasileira. Segue abaixo um fragmentos retirado do livro de Roberto Moura, "Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro:



"Nos cantos das nações se tornam comuns as giras dos
batuqueiros onde vai surgir o samba baiano, motivos
desenvolvidos pelo coro e contestados pelos solistas: o samba de
roda. Orquestra de percussionistas com tamborins, cuícas, recorecos
e agogôs. Batuque era o nome genérico que o português
dava às danças africanas suas conhecidas ainda no continente
negro, que na Bahia tomam a forma de uma dança-luta que
ocorria aos domingos e dias de festas na praça da Graça e na do
Barbalho, apesar da constante vigilância policial."

Notem nos vídeos abaixo, principalmente no segundo, Paulinho da Viola em pleno terreiro de samba questiona alguns dos presentes sobre o samba de partido alto e é de opinião geral que o partido alto vem do samba de roda da Bahia. O livro de Roberto Moura, traz em seu segundo capítulo uma detalhada introdução ao contexto social do nordeste brasileiro, no qual se forma os primeiros centros culturais urbanizados, com a grande e intensificada participação dos negros trazidos como escravos ainda antes da colonização, pois a intenção de explorar estas terras vem antes do registro de descoberta em 1500. A chegada do povo da Guiné e tantas outras etnias que se interrelacionavam e até guerreavam nas terras africanas se vêem forçados a se adaptarem a uma vida social totalmente nova, com imposições cruéis e que os obrigavam a recriar processos de adaptação, mas que nem sempre deixaram a cultura, a sabedoria, a religião e a expressão africana para trás, agora miscigenando uma nova cultura, misturando-se aos negros da terra, os ameríndios e aos donos de terra e seus costumes europeizantes.

Prestem bem atenção, pois não estou propondo nenhuma alteração na história, muito menos distorcendo fatos, mas o que quero dizer é sério e utilizo de fontes seguras como referências. Recentemente, num livro de Bernardo Alves, "A Pré-História do Samba", o autor afirma afirmava que o samba surgiu entre os índios do Nordeste brasileiro, ao que tudo indica ainda antes do descobrimento, recebendo depois importantes influências européias e africanas. Bernardo Alves utiliza documentos e estudos de conceituados pesquisadores como Sílvio Romero, Fernão Cardim, Sílvio Salema, Gilberto Freyre, entre outros. Muitos jesuítas e estudiosos da épocas colonial relatam histórias que nos levam a crer que um mapeamento do surgimento do samba no Brasil possa ser esclarecido depois de tantos anos. Muitos relatos falam dos trejeitos dos índios para com a música, seus costumes, a vida dos negros, as relações dos grupos étnicos desfavorecidos e tantas outras coisas. Por exemplo, no Tratado Descritivo do Brasil em 1587, Gabriel Soares de Sousa fala de um povo indígena da Bahia que não fora aldeado por jesuítas e conhecia o tamborim:

" Os tupinambás se prezam de grandes músicos, e, ao seu modo, cantam com sofrível tom, os quais têm boas vozes; mas todos cantam por um tom, e os músicos fazem motes de improviso, e suas voltas, que acabam no consoante do mote; um só diz a cantiga, e os outros respondem com o fim do mote, os quais cantam e bailam juntamente numa roda, na qual um tange um tamboril, em que não dobra as pancadas; outros trazem um maracá na mão, que é um cabaço, com umas pedrinhas dentro, com seu cabo por onde pegam; e nos seus bailes não fazem mais mudanças, nem mais continências que bater no chão com um só pé ao som do tamboril; e assim andam todos juntos à roda, e entram pelas casas uns dos outros; onde têm prestes vinho, com que os convidar; e às vezes anda um par de moças cantando entre eles, entre as quais há também mui grandes músicas, e por isso mui estimadas."




Muitos acreditam que esta forma de manifestação musical relatada era frequente nos sambas de roda do recôncavo baiano e futuramente nos terreiros de samba do Rio de Janeiro chamados de partido alto. 







quarta-feira, 21 de julho de 2010

Mestre Candeia

Vou pelas minhas madrugadas a escutar samba e escrever o que se passou, pois não é toda dia que tem roda de samba...mas bem que poderia. Agora pouco me veio à lembrança um samba de Candeia, Pintura sem Arte, e com ele uma enxurrada de pensamentos, neles veio o Projeto 14 Sambas, que comemora 5 anos de samba e quem puxou o verso inicial foi Mestre Candeia. Aí pensei logo: por que não fazer uma roda cantando os sambas de Candeia e relembrar o projeto, minha justificativa é não ter participado do primeiro Projeto 14 sambas, pois não conhecia a querida e hoje minha escola de samba, Comunidade Quilombola, pois foi onde aprendi o que é uma roda de samba tradicional. Mas antes de articular esta roda com a força dos amigos, vale a pena comentar a obra e vida de Antonio Candeia Filho, um autêntico sambista brasileiro.

Biografia Comentada





Antônio CANDEIA nasceu em 1935, no dia 17 de agosto e cresceu no bairro de Oswaldo Cruz, berço da Portela. Sua infância foi marcada pela vida cultural regada de choro, influência do pai flautista, de samba e partido alto, pois conhecera Paulo da Portela, Claudionor Cruz, Zé com fome e Luperce Miranda nas rodas familiarizadas desde criança. Candeia se forma num ambiente marcante para a música popular, o período de formação e estruturação das escolas de samba do Rio de Janeiro, onde conceitos de identidade nacional e tradição popular eram delineados pelas festividades carnavalescas, diante da mais pura manifestação cultural de um povo, da qual se instaura as bases do carnaval brasileiro, dos desfiles organizados e temáticos, envolvendo comunidades representadas por pessoas que traziam o samba como bagagem cultural de vivencia e porque não, de resistência popular. Provavelmente, o contexto em que se formou sambista foi de crucial importância para e efetivação de seu nome na história da música brasileira, considerando que Candeia era frequentador da Escola de Samba Vai Como Pode, que deu origem à Portela e que daria suporte para nos anos 70 participar de um movimento de resistência à imposições externas que mudariam o rumo das escolas de sambas, defendendo que tais influências poderiam distorcer (e como distorceram!) a concepção de cultura construída pelo povo em relação ao samba. A crítica de Candeia e outros integrantes portelenses, entre eles Paulinho da Viola, era que na década de 60 muitas pessoas sem identificação com o samba passaram a modificar a escola e interferir estruturalmente no carnaval, chegando a deturpar os sambas antes comuns aos portelenses que viviam o dia a dia da escola e da comunidade. Quero ressaltar a importância desse fato, documentado e passível de análises que condizem com as angústias dos questionadores portelenses que discutiam os rumos particulares e portanto identificados com a história da Portela, pois realmente as modificações explicitadas foram incorporadas e espetacularizadas no carnaval, distorcendo o seu real sentido de manifestação popular para produto comercial.
A postura de Candeia demonstra seu braço firme e pulso forte pelo samba e suas razões, comprovado em seus sambas, marcados pela poeticidade autêntica do sambista que nos permite separar seus 30 anos de composição, pois começou compor aos 13 e morreu precocemente aos 43 anos. A primeira fase condiz com sua formação de sambista, com forte influência do partido alto, do comprometimento com as causas e políticas negras, das letras marcadas pelo sofrimento do pobre, do marginal, das injustiças, dos preconceitos. Em 1957 entra para a polícia, pois era uma atividade que trazia certa segurança financeira e prestígio social em detrimento do preconceito racial, mas sua história na milícia acaba trágica. Numa batida policial em 65, Candeia descarrega a pistola nas rodas de um caminhão abordado e acaba surpreendido pelo motorista que desfechou cinco tiros, um deles alojou-se na medula óssea. Paralítico, afastou-se da profissão, mas o trauma de vida perturbou-lhe e assim começa a segunda fase de sua obra musical. O acontecido acometeu depressões que foram expressas em frases desinteressadas do presente e passado, mas que Candeia carregaria como marca poética em sambas falando sobre questões existencialistas e filosóficas demonstrando o abalo psicológico e das dificuldades que passa a enfrentar. Felizmente a filosofia do samba canta mais alto e a chama de Candeia se eternizou em sambas saudosos e que revivem nas rodas de samba em todos os cantos do país.
Superando todas as adversidades e cantando outras, Candeia teve a trajetória artística impecável e traduziu em sambas suas idealizações e concepções a respeito do samba e suas raízes. Ganhou o enredo do carnaval com 17 anos, formou conjuntos de compositores, foi gravado por muitos artistas, escreveu livro e lançou discos com outros grandes nomes do samba como Elton Medeiros, Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito, ilustrados na foto. 


Para finalizar a postagem, fiquem com o samba "Pintura sem Arte" de Candeia, para ilustrar a profundidade  das letras, nesta em especial, pois trata do acidente que o imobilizou as pernas e conduziu uma fase poética marcada pela tristeza e lamento dos versos. 








PINTURA SEM ARTE Candeia

Me sinto igual a uma folha caída
Sou o adeus de quem parte
Pra quem a vida é pintura sem arte
A flor esperança se acabou
O amor, o vento levou
Outra flor nasceu é a saudade
Que invade tirando a liberdade
Meu peito arde igual verão
Mas se é pra chorar, choro cantando
Pra ninguém me ver sofrendo
E dizer que estou pagando

Não, não basta ter inspiração
Não basta fazer uma linda canção
Pra cantar samba se precisa muito mais
O samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais
Por isso eu agradeço a saudade em meu peito
Que vem acalentando o meu sonho desfeito
Jardim do passado, flores mortas pelo chão

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Germano Mathias no Municipal!

Grande notícia, samba no Teatro Municipal de Piracicaba! O samba dos tempos idos se aprimorou e sem cerimonias entrou para o salão da sociedade. Cartola e Carlos Cachaça ja disseram isso há muito. O samba se transformou, como sempre, e vem se transformando com o passar do tempo e o esquecimento do passado, embora viva na memória de poucos que mantém a chama acesa, mas sempre se renova como água da fonte. Claro que o galão de 20 litros sai mais caro e a tendência é aumentar, mas ainda dá pra pagar o preço do samba, pois ainda é bem representado por geniais artistas e Germano Mathias é um deles, autoridade do samba paulista, o catedrático, o sincopado Germano Mathias, o sambista diferente, a ginga do asfalto da paulicéia e samba é com ele mesmo.


Em continência ao samba, Germano Mathias se apresenta amanhã, no Teatro Municipal "Dr. Losso Netto" às 20h00 e o espetáculo é evento da 1ª Semana de Cultura Artistica, promovida pela ACAP, Associação de Cultura Artística de Piracicaba que comemora 85 anos.  

O sambista

Nasceu no dia 2 de junho de 1934, no bairro do Pari na capital paulista. Germano Mathias começou a carreira em 1955, na Rádio Tupi de São Paulo, quando participou do concurso À Procura de Um Astro. Germano gostava de acompanhar a batucada dos engraxates em rodas de sambas das praças do centro de São Paulo. Daí veio a habilidade em tocar latinha de graxa, característica do samba da paulicéia e que marca a personalidade de Germano. Por causa da latinha de graxa, foi convidado tocar frigideira na Escola de Samba Rosas Negras da rua Lavapés, no Cambuci. Aí foi um pulo pro rádio e Gemano tem uma voz que impressiona, pois quando participava em programas radiofônicos, todos achavam que era negro, pela marca vocal de samba sincopado, malandreado e como o próprio diz: com suas presepadas. Quando chagou à televisão, surpreendeu a todos que achavam que era negro, e lá estava Germano, um jovem, figura rara do samba brasileiro, o branco mestiço por brasilidade, que logo ganhou o apelido de Catedrático do Samba, por Randal Juliano, apresentador do programa Astros dos Discos, na TV Record em virtude de um diploma de Bacharel do Samba da Ordem da Palheta Dourada, outorgado pela Escola de Samba X-9 da cidade de Santos, em 1967.   
Germano Mathias foi o primeiro cantor a gravar uma música de Geraldo Filme. Gravou canções de Zé Keti, Nelson Cavaquinho e Martinho da Vila. Com Jorge Costa fez seus maiores sucessos, como O Baile do Risca Faca e Falso Rebolado. Foi campeão de venda de discos, faturou com comerciais e chegou até ganhar um automóvel de uma gravadora. Outros sucessos vieram em seguida como: A Situação do Escurinho, Falso Rebolado, Guarde a Sandália Dela, Tem Que Ter Mulata, Malvadeza Durão , Malandro de Araque, Baile do Risca Faca, Bonitona do Primeiro Andar, Nega Dina, Cambalacho e Jeronimo (Essa música foi tema do personagem de mesmo nome na novela Cambalacho da Rede Globo). Participou de dois filmes: O Preço da Vitória e Quem Roubou Meu Samba. 
Hoje, com todo o sucesso do passado, Germano mora na lembrança dos que viveram uma outra época e na memória dos que ultrapassam a linha do tempo do samba e conhecem o gênero com naturalidade. Germano é fundamental para a história do samba paulista e assim, brasileiro. Germano foi incentivado a investir na carreira musical por Toniquinho Batuqueiro, piracicabano lendário, cidadão e imperador do samba de São Paulo. Na época Toniquinho disse ao Germano: "se você quiser fazer sucesso, procure o rádio! E o conselho foi ouvido...o tempo passou...hoje o Catedrático reflete sobre a idade, que o atapalha de duas maneiras: alguns o acham velho demais pro sucesso e os produtores novos não o conhecem. Por que será? Adiciona ele no Orkut, ou no Facebook, ou no Sonico, ou no Myspace, ou procura no Google.


Ou copia o link aqui, baixa uns discos dele e aproveita pra salvar o blog nos favoritos! 
http://pratoefaca.blogspot.com/search/label/Germano%20Mathias 


ASSISTA: Alguns vídeos do Germano Mathias na televisão virtual, o Youtube!


quinta-feira, 15 de abril de 2010

Samba da Paulistânia!




Hoje me veio à cabeça escutar samba, como de bom costume. Logo comecei a cantarolar um samba do Grupo Casuarina, lá do Rio. Um samba bonito chamado Certidão, que fala dessa coisa meio complexa que é a possessividade sambística de apropriação do samba e de sua história como se fosse possível resumir, sintetizar ou mesmo precisar origens ao ponto de esclarecer de quem ele é. O samba é coisa que liberta a alma, que alivia o corpo e aquece o espírito. Por essas razões ele, o samba, não pode ser aprisionado. Tem que ser liberto e expressado da melhor forma possível, cantando, tocando e fazendo. Mas Casuarina não era o que eu queria ouvir naquele momento, embora ache bem interessante a mistura de linguagens, misturando o tradicional com o samba modernizado, do naylon, do banjo e com bateria. Então mudei de estação e fui buscar o Samba de Fato, junto com a Cristina Buarque, autoridade do samba brasileiro. Essa mulher tem história e samba pra cantar. E foi lenha na fogueira, relembrei um belíssimo Cd só de sambas de Mauro Duarte. Nesta hora meu coração já estava batendo 2 por 4. Mauro Duarte é o que tem de melhor no samba em todos os tempo, na minha opinião, pode falar o que for. Aquele samba canção, meio dolente, aquela melancolia boa falando de tristeza com muita beleza, falando de injustiça com muita resignação e sabedoria, sentimento de poeta que sabe as coisas boas do mundo, tudo guardado nos seus sambas eternos, e diga-se de passagem, muito bem executado pelo Samba de Fato, de fato. Esses caras são bons, sabem tudo de samba e por isso podemos todos ficar tranqüilos que o samba está bem guardado. Agora estava consumido, possuído de samba. Dormir? Quê!? fui escutar mais...Como diria o seu Ambrósio: vou lá conferir! E como que por impulso botei Anabela pra tocar, Cidade das Noites. Agora sim, a razão deste depoimento, meio dramático com gosto de samba. É uma das coisas mais bonitas de se ouvir no que diz respeito ao samba contemporâneo, pois não sei ainda outra forma de taxar, mas hei de descobrir! Um álbum primoroso, caprichosamente arranjado por Edu de Maria pelo visto, Ana com sua Bela voz sambarolando letras de Roberto Didio e melodias de Renato Martins. Os compositores são membros do Terreiro Grande, reduto de samba em São Paulo, lá o samba mora também. Anabela e Edu de Maria são integrantes do Núcleo de Samba Cupinzeiro, grupo de Campinas gabaritado no assunto. 
Anabela, Renato Martins, Roberto Didio e Edu de Maria


Quero deixar claro que expresso simplesmente o que sinto pelo samba e que busco sempre entender sua história para poder pisar o chão daqueles que enxergam seu tapete estendido através do esclarecimento e do respeito. Não querendo contradizer o início pois acredito que o samba não deve ter fronteiras, muito menos aquelas com barreiras de vaidades floreadas de egos e ilusões. Mas vamos por os pingos nos is e se der nos jotas também: se for pra falar de samba paulista, temos que incluir sempre os nomes destes bambas da paulistânia. Cidade das noites traz um sentimento novo, nunca experimentado no paladar do samba. Desculpem o exagero, mas sei no fundo que não é. Pois nele você mergulha no universo do samba, ali tem as rosas de Cartola, ali tem o espinho de Nelson, ali tem o choro negro de Paulinho e Pixinguinha, ali tem tem história de samba pra mais de métricas. É música brasileira pura. Tem toques de coisas do nosso povo de longe, das Modinhas, das Canções , dos Maxixes...uma aquarela mestiça, de branco, de negro, de índio e tudo que pisou e misturou por estas terras. Por mim já está na história. 
Saulo Ligo



ASSISTA: Aqui postarei junto ao amigo YouTube alguns vídeos desses e outros bambas da terra nossa. Este vídeo abre o repertório do Núcleo, Lamento Negro (Edu de Maria e Bruno Ribeiro).

Depois uma sequência de sambas de Adoniran Barbosa: Despejo na Favela, Abrigo de Vagabundos e Iracema. 


Para complementar o retrato paulista, Menino Grande de Geraldo Filme! O Geraldão da Barrafunda diria com exuberância Plínio Marcos.


E pra fechar a noite, vou provocar meu povo. Aí está, o grande Oswaldinho da Cuíca que pisou recentemente em terras piracicanas de Toniquinho Batuqueiro. Um samba da parceria e não poderia ser mais adequado o nome: Ditado Antigo.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fabiana Cozza

Como esqueci de dar a notícia, vou ao menos divulgar o acontecimento. A graciosa Fabiana Cozza se apresenta hoje em Piracicaba e será muito bem recebida pelos músicos piracicabanos. A abertura fica ao som do respeitável Cateretrio, formado por Samuel Gustinelli, Wagner Silva e Fernando Nogueira. A encantadora Lú Garcia soma sua voz com as piracicabanas Sandra Rodrigues, Teresa Alves e Nina Neder. Show de fato inesquecível e de grande valor musical. E viva a música! Merecemos todos os aplausos pela expressividade da música paulista que muito valoriza e acrescenta à música brasileira. 


ASSISTA: Neste vídeo, Fabianna Cozza é acompanhada por Zimbo Trio, formado por Amílton Godoy (piano), Itamar Colaço (contrabaixo) e Rubens Barsotti (bateria). Formado no início de 1964 em São Paulo por Luiz Chaves, baixo, Rubens Barsotti, bateria e Amilton Godoy, piano, foi um dos grupos que mais influenciaram outras músicos em relação à maneira de acompanhar música brasileira.  Itamar Colaço substituiu Luiz Chavez no contrabaixo e integrou-se ao Zimbo, trio que é expoente da ala paulista da bossa nova, apoiados no toque pianístico de formação erudita de Godoy. A música interpretada é do grande carioca e brasileiro Paulo César Pinheiro e Wilson das Neves, lançado em 1996 no disco "O Som Sagrado de Wilson das Neves". Com vocês o Samba é meu Dom.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Sombrinha

Montgomery Ferreira Nunis, paulista de São Vicente, é mais conhecido como Sombrinha, cantor, compositor, cavaquinista, bandolinista, banjoísta e violonista. E um dos fundadores do grupo Fundo de Quintal, junto com Almir Guinéto, Jorge Aragão, Bira, Ubirani, Sereno e Neoci. Autodidata, Sombrinha começou cedo a tocar. Aos 14 anos, ganhou do pai um violão de 7 cordas e passou a tocar em casas noturnas. Em 1977, aos 18 anos, já era profissional, e gravou com Baden Powell e Originais do Samba. Dois anos depois, estava na cidade do Rio de Janeiro. Além do grupo Fundo de Quintal, ele tem em seu currículo, vários sucessos. Em 1980, compôsMarcas no leito, com Jorge Aragão, sucesso na voz de Alcione, depois regravada por Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, o próprio Aragão, Ivone Lara, Chico Buarque e Caetano Veloso, entre outros. Ao longo da carreira, colecionou 10 Prêmios Sharp de Música, desde os tempos de Fundo de Quintal. Três deles, como melhor composição, para as canções Além da razão, Nas rimas do amor e Ainda é tempo pra ser feliz.

CONFIRA: Trechos de algumas entrevistas cedidas por Sombrinha.

COM QUE IDADE COMEÇOU A CARREIRA DE MÚSICO? Comecei muito cedo. Aos 14 anos ganhei um violão de sete cordas do meu pai e comecei a tocar em casas noturnas. Hoje, além do violão, toco cavaquinho, banjo e bandolim. Em 1977, quando completei 18 anos, já tocava profissionalmente. Foi aí que gravei com Baden Powel e os Originais do Samba.

VOCÊ TEVE ALGUMA INFLUÊNCIA MUSICAL? Existem várias, como Chico Buarque, Paulinho da Viola, Pixinguinha, Jacó do Bandolim. Meu pai fazia rodas de choro, e desde menino, acompanhava meu pai. Sempre respirei a boa música.

TEM ALGUÉM QUE ALÉM DE INCENTIVO TENHA TE AJUDADO NO INÍCIO DA SUA CARREIRA? Meus grandes amigos Almir Guineto, Jorge Aragão e Neoci, que fundou o grupo Fundo de Quintal, foram sem dúvida pessoas que me incentivaram a dar o pontapé inicial na minha carreira.

EXISTE ALGUMA DIFERENÇA ENTRE O SAMBA QUE ERA FEITO ANTIGAMENTE DESTE QUE É PRODUZIDO HOJE EM DIA? A diferença é que o samba daquela época foi uma revolução melódica. Acabou acontecendo.Nós íamos para o terreiro cantar músicas, mas inéditas e fizemos uma escola. Em 1984 foi que a coisa arrebentou de vez mesmo. O pessoal de hoje faz pagode, com músicas que tocam na rádio. Na nossa época, o Beto Sem -Braço vinha e mostrava uma música e depois que ele mostrava todo mundo já aprendia e cantava junto.. eu, o Jorge Aragão, o Zeca, o Arlindo Cruz. E isso criou um movimento muito forte de compositores e músicos. E hoje nós somos referência. Já o pagode é um estilo que foi criado, que eu não tenho nada contra. Acho que é válido. Eu costumo dizer que cada um faz o que sabe.

TU QUE JÁ RECEBESTE VÁRIOS PRÊMIOS, ENTRE ELES DEZ DO SHARP DE MÚSICA, QUAL É A CONTRIBUIÇÃO DESTES PRÊMIOS PARA O SAMBA? Acho que é a melhor possível. Veja bem, de todos os sambas, você ganhar como melhor compositor, é maravilhoso! É o reconhecimento de um trabalho que foi construído ao longo de quase 30 anos. Foram dez prêmios Sharp de Música, sendo três como compositor. Vale esse reconhecimento e eu tenho muita estima pelos prêmios de música do Brasil. Causa uma certa segurança para a gente fazer cada vez melhor.

TENS COMO APONTAR UM ARTISTA QUE TU CONSIDERE A REVELAÇÃO DO SAMBA? Para mim, todos são contemporâneos, não tenho como apontar. Eu acho, sinceramente que depois do Fundo de Quintal a coisa parou, não teve criação e novidade dentro do samba. Tanto como movimento,tanto como compositores.

HOUVE ALGUM MOTIVO PARA TER SAÍDO DO FUNDO DE QUINTAL, PARA FORMAR DUPLA COM ARLINDO CRUZ? Nenhum motivo em especial. Larguei porque já estava desgastado para mim. Já havia 12 anos que estava no Grupo. Queria fazer uma coisa diferente, como misturar as músicas com choro, valsa... Uma coisa que tivesse mais a minha cara, e lá eu não tinha esse espaço. Então, sai e formei dupla com Arlindo, que durou sete anos. Foi uma fase de sucesso. Gravamos cinco discos.

VOCÊ DESMANCHOU A DUPLA PARA LANÇAR CARREIRO SOLO. MAS VOCÊ E O ARLINDO CONTINUAM AMIGOS? Sim. Somos amigos. Ele é o meu compadre. Cada um está seguindo sua vida agora.

ASSISTA: Ensaio com Arlindo Cruz e Sombrinha, pela TV Cultura, programa de Fernando Faro.


sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Almir Guineto

Almir de Souza Serra nasceu no dia 12 de julho de 1946 no Morro do Salgueiro, Rio de Janeiro. Criado em meio a músicos de primeira linha como Geraldo Babão, Antenor Gargalhada e muitos outros, Guineto cresceu influenciado pela veia sambista de seu pai, Iraci de Souza Serra, respeitado violonista e integrante do grupo Fina Flor do Samba, e de sua mãe, Nair de Souza Serra – a “Dona Fia”, costureira do Salgueiro e figura ancestral do samba. Dono de uma voz inconfundível, única, rascante, o cantor, músico e compositor ingressou aos 16 anos no grupo Originais do Samba, fundado por seu irmão mais velho, Francisco de Souza Serra – o “Chiquinho”, onde tocou por dez anos. O “Rei do Pagode” - como ficou conhecido – conduziu a bateria do Salgueiro por 15 anos e ao sair deixou o posto para seu irmão mais novo, o lendário “Mestre Louro”. No final dos anos 70, em meio à alta sonoridade dos couros de tantãs e pandeiros da época, Almir adapta o banjo americano ao samba do Cacique de Ramos. Também é neste período que Guineto começa a se destacar, durante os pagodes, como versador imbatível, partideiro incontestável, devido à sua criatividade e divisão de tempo na aplicação das rimas de improviso. Apoiado por Beth Carvalho, Almir Guineto oficializaria em 1980 a fundação do Grupo Fundo de Quintal, ao lado dos parceiros Neoci, Jorge Aragão, Sombrinha, Bira, Ubirany e Sereno. Após a gravação do disco “Samba é no Fundo de Quintal”, Almir deixaria o conjunto a partir de 1981 para cantar em carreira solo. Almir Guineto é hoje grande representante do pagode, compositor assíduo, voz marcante e tem raízes profundas na história do samba.

ASSISTA: Zeca Pagodinho interpreta Lama nas Ruas, parceria com Almir Guineto.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Arlindo Cruz

Arlindo Domingos da Cruz Filho (Rio de Janeiro, 14 de setembro de 1958). Aos sete anos, o menino ganhou o primeiro cavaquinho. Aos 12 começou a aprender violão com seu irmão, Acyr Marques. Entrou para a escola Flor do Méier, onde estudou teoria, solfejo e violão clássico por dois anos. Ainda novo começou a fazer rodas de samba e conheceu Candeia, padrinho considerado de Arlindo, com quem gravou seus primeiros discos, tocando cavaquinho. Ao completar 15 anos foi estudar em Barbacena MG, na escola preparatória de Cadetes do Ar, mas não abandonou a música. Cantava no coral da escola. Começava, então, a nascer o compositor Arlindo Cruz, que ganhou festivais em Barbacena e Poços de Caldas. Quando deixou a Aeronáutica, passou a freqüentar a roda de samba do Cacique de Ramos, que já revelava novos talentos. Lá, conheceu seu principal reduto de samba, onde ganhou reconhecimento musical como compositor e instrumentista. Com a saída de Jorge Aragão do Fundo de Quintal, foi convidado a participar do Grupo. Foram 12 anos de dedicação e projeção nacional. Saiu do Fundo de Quintal em 1993 e começou um carreira solo, logo depois fez parceria com Sombrinha. Tem mais de 550 músicas gravadas por diversos artistas. Hoje goza de grande aclamação popular e é um dos compositores mais ativos do país. A impressão que fica é que, mesmo envolto pela indústria cultural, Arlindo não perde suas raízes e tem mãos batizadas em berço esplêndido de sambistas. Hoje, juntamente com Zeca Pagodinho, Maria Rita e Marcelo D2, Arlindo Cruz causa uma profunda (re)transformação do samba na sociedade. Romper paradigmas é acabar com preconceitos.

ASSISTA: Neste vídeo estão Arlindo Cruz e Sombrinha, no Programa Ensaio da Tv Cultura.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Mauro Diniz

Nascido num dos bairros mais tradicionais do samba carioca de Oswaldo Cruz, aos 4 anos ficava entre as pernas do pai, deixando todos boquiabertos com a habilidade nos primeiros acordes no cavaquinho. Aos 8 anos além de ter feito uma paródia com um samba de seu pai, para ser o samba-enredo do Bloco da Alegria, foi presenteado com um violão por sua mãe Thereza, pastora da Escola assim deu seus primeiros passos em direção a música guiada nada mais nada menos por bambas da Velha Guarda da Portela. Tinha seu sono embalado por sambas Antológicos de seu maior ídolo, seu pai, o Extraordinário Monarco da Portela. Mauro Diniz foi um autodidata invejável, durante muito tempo. Aos 24 anos comprou seu primeiro cavaquinho, não se separando do instrumento, até trocá-lo por um outro que já tinha sido do Mestre Nelson Cavaquinho, este último o acompanha até hoje. Em 1982, começou a cursar a Faculdade de Educação Física, não completando o curso devido às seguidas viagens que fazia integrando a banda da cantora Beth Carvalho. Estudou música com gente competente como o nosso saudoso Copinha, maestro Joaquim Nagle e, indicado pelo maestro e Produtor Rildo Hora, foi estudar piano clássico, harmonia e percepção com a magistral professora Felícia. Algum tempo depois se matriculou no CIGAM, um dos melhores cursos de música do Rio de Janeiro, onde concluiu o Curso de Harmonia, Improvisação e Arranjo. Teve entre grandes Mestres o ilustre IAN GUEST, o Mestre dos Mestres. Hoje, Mauro Diniz está entre os mais conceituados cavaquinistas do país, um dos mais estudiosos. Fazendo jus à veia poética da família - seu avô José Felipe Diniz escrevia poesias na revista mineira As Moças - Mauro também começou a compor e já gravou com Roberto Ribeiro, Grupo Fundo de Quintal, Nosso Samba e com Monarco. Já gravou tocando em quase todos os discos de samba e também com Amelinha, Fagner e Ivan Lins. Seu último CD, SAMBA COM REALIDADE, gravado recentemente, recorda os tempos de Pagodes do Cacique de Ramos e faz homenagens a grandes sambistas como Mestre Marçal, Roberto Ribeiro e ao Grupo Fundo de Quintal.

ASSISTA: Neste vídeo cantam Mauro Diniz e Guilherme Nascimento, parceiros no samba Ingrata Paixão.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Ratinho

Alcino Correia Ferreira, Ratinho foi criado em Pilares. Pela Caprichosos, escola do bairro, ganhou sete sambas-enredo incluindo um estandarte de ouro em 78, “Festa da uva, no Rio Grande do Sul”. Tem mais de dez músicas gravadas com o parceiro Zeca Pagodinho e outras por Roberto Ribeiro, Jovelinha Pérola Negra, Jorge Aragão, Almir Guineto, Fundo de Quintal, Dorina, Beth Carvalho e Fátima Guedes. Entre muitos parceiros, um verdadeiro álbum de parcerias de samba, estão Monarco, Mijinha, Noca, Argemiro, Wanderley Monteiro, Guilherme de Brito, Nelson Cavaquinho, Mauro Diniz e Zé Luiz do Império. Desde 2004 ele organiza a Toca do Rato, ao lado da sua esposa Dê, que toca a cozinha. Lançou recentemente o Cd O Rato sai da Toca, com composições suas inéditas.

“Ratinho é para citar seu samba com o parceiro Marcio Vanderlei, um caso sério. Não basta ter completo domínio da arte de fazer samba, não é suficiente exibir competência, conhecer seu povo e sua cidade, tudo isso conta e muito, mas, tem que ter o Dom, tem que ser abençoado por entidades misteriosas que benzem a fronte dos que se tornam Mestres, São muitos os bons sambistas e raros aqueles que transmitem com simplicidade e beleza uma espécie de sabedoria ancestral. Não por acaso, Ratinho é um dos parceiros favoritos de Zeca Pagodinho, Sua benção, Ratinho! Sambista único - para voltar a citar o primoroso “Malaquias”, um craque como há muito não se via.ALDIR BLANC

ASSISTA: Neste vídeo Zeca Pagodinho convida Nilze Carvalho, Dorina, Teresa Cristina e Juliana Diniz. Participação de Monarco, parceiro de Ratinho no samba Coração em Desalinho.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Histórias do Carnaval






















Agora é Cinza (1933) Bide e Marçal

Você partiu,
Saudades me deixou,
Eu chorei,
O nosso amor, foi uma chama,
O sopro do passado desfaz,
Agora é cinza,
Tudo acabado e nada mais !...

Você,
Partiu de madrugada,
E não me disse nada,
Isso não se faz,
Me deixou cheio de saudade,
E paixão,
Não me conformo,
Com a sua ingratidão.
( Chorei porque )

Agora desfeito o nosso amor,
Eu vou chorar de dor,
Não posso esquecer,
Vou viver distante dos teus olhos,
Ho ! Querida,
Não me deu,
Um adeus, por despedida !
( Chorei porque )

Esta música foi lançada nos ensaios da Escola de Samba Recreio de Ramos, da qual Marçal era vice-presidente, para o carnaval de 1933 com o título de "Tu partiste", mas foi modificada pelo parceiro Bide, Alcebíades Barcelos (foto da esquerda) tendo ficado com o nome "Agora é cinza". Bide foi quem introduziu ao samba o surdo, instrumento de orquestra, na bateria da escola. "Naquela época não tinha surdo em escola de samba. Era só pandeiro e tamborim. Precisava do surdo para chamar atenção do coro que ia na frente e manter o ritmo. Por isso fiz quatro surdos de latas grandes e redondas de manteiga. No carnaval seguinte, todo mundo veio do mesmo jeito", costumava contar o compositor, que morreu em 1975.

Bide nasceu no dia 25 de julho de 1902 e como sapateiro era um ótimo compositor. Sua primeira composição, Malandragem, caiu nas graças do público e de Francisco Alves. "O Chico ouviu esta música e foi me procurar. Naquela época ele não tinha nem carro", revelou Bide a Juarez Barroso, do Jornal do Brasil, em 1966. O compositor e ritmista Armando Vieira Marçal (foto da direita) nasceu em 14/10/1902 no Rio de Janeiro e faleceu em 20/6/1947. Formou com Bide uma das mais importantes duplas de compositores de samba da primeira metade do século passado. Ofereceram duas músicas ao grande cantor Mario Reis: "Durmo Sonhando" e "Agora é cinza" que deixou Francisco Alves escolher qual preferia cantar. Chico Alves escolheu a primeira e Mario Reis ficou com a segunda que fez enorme sucesso no carnaval de 1934 ao contrário da outra. "Agora é cinza" foi eleita por um juri de críticos em 1975, convocados por Marcus Pereira, como "o melhor samba de todos os tempos". É um grande exemplo de como eram diferentes os tempos de outrora, quando o samba saía direto do coração pro papel.


ASSISTA: Este vídeo é parte da entrevista de Mestre Marçal ao Programa Ensaio de 1991 da Tv Cultura, de Fernando Faro.